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Edição de 11-10-2018
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Arquivo: Edição de 04-10-2018

Secção: Opinião

Recolher à seráfica existência
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A Beira Interior prepara-se para debater e refletir, nos próximos dias, a acção do franciscanismo no território de entre Tejo e Douro, desde os alvores do séc. XIII até ao advento do Liberalismo. Pensar hoje o legado do “Renovador da Humanidade” – título do “opus magnum” de Guedes de Amorim – que foi o “Mendigo de Assis”, mais do que estabelecer a cartografia dos principais núcleos conventuais de onde a sua espiritualidade emanou, ao longo de seis séculos, será entender as razões porque a ordem mendicante se estabeleceu de forma tão arreigada nestas latitudes.

Uma pia e romântica tradição, que Frei Manuel da Esperança, na sua “Historia Seraphica…” (1656-1666) cristalizou – e há muito descreditada, ante a falência de fontes credíveis, por sucessivas gerações investigadores, diga-se – dá conta que o próprio S. Francisco terá estado na Guarda, aquando da sua peregrinação a Compostela em 1214. Deixo para os antropólogos culturais a questão – porque, ao menos, nesse domínio há um manancial que não desmerece aturada investigação – mas o que temos de factível é suficiente para construirmos todo um agregado histórico que permita uma visão de conjunto da duradoura praxis franciscana na região. E se pertence ao domínio mitológico a presença de Giovanni di Pietro na cidade mais alta – sendo que as suas biografias estão repletas de episódios contraditórios e até ominosos – já outros factos nos permitem colocar o território em apreço no topo dos testemunhos que atestam a importância dos seguidores de Francisco entre nós, de que é exemplo a circunstância do primeiro prelado que a ordem mendicante terá tido em Portugal ser o bispo da Guarda D. Frei Vasco I (ou Velasco), que é investido em tal dignidade em 1267, tendo-se notabilizado como diplomata pontifício e figura de vulto no orbe eclesial. Sucedeu-lhe na mitra guardense outro franciscano, D. Frei João Martins (1277), que participou nas Cortes da Guarda de 1282. Seja como for, desde a fundação do Convento de S. Francisco, que terá acontecido ao redor de 1236 (a fazermos fé no “Dicionário Geographico”, de Luiz Cardoso, 1751), até ao decreto de Aguiar, de 1834, interessa-nos consignar a história de uma ordem que se enraizou na sociedade beiroa como nenhuma outra. E se todo o historiador se ocupa do estudo da acção humana no tempo (pretérito) e no espaço para proceder à análise comparativa de circunstâncias e determinações, numa jornada de estudo e reflexão como são as que promove entre 3 e 5 de outubro a Misericórdia da Covilhã – a quem felicito – também cabe aqui estabelecermos nexos com o tempo presente entre a “forma vitae” dos seguidores de Francisco e os que são preconizados nos dias de hoje.

A obra do “Poverello”, numa interpretação “stricto sensu” dos Evangelhos, da qual nunca abdicou, precisa de ser avaliada aos olhos do presente não só pelo pioneirismo da sua mensagem, ao proclamar a magnificência da Natureza, a maravilha que constitui toda e qualquer existência biológica ou não – contrariando o negativismo da doutrina vigente que via o mundo como sendo necessariamente perverso (ele foi um dos inspiradores do movimento da renascença) – mas sob a égide de um exemplo vivo para a espuma dos dias que passam. Francisco – procurando o lado belo e bom de cada ser, o deus cuja visibilidade assume pluralidade corpórea (estou convicto, e já o defendi em várias ocasiões, que ele terá sido mesmo percursor da filosofia panteísta de Espinosa) – o seu desprendimento material, as preocupações com aquilo que hoje chamaríamos de justiça social, o cultivo da humildade na autenticidade, a renúncia a tudo o que seja faustoso, acessório e caduco – recorde-se que recusou até ordenar-se sacerdote –, contrasta vivamente com um tempo que tem precisamente no fausto, na aparência e na superficialidade os seus esteios fundamentais.

E face à mensagem seráfica, saborearão um travo amargo todos aqueles que não conseguiram ainda aceitar que, quando um convento franciscano dá origem a um hotel de luxo, estamos, acima de tudo, perante um sinal dos tempos.

Por: João Mendes Rosa

*Escritor


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