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Edição de 11-10-2018
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Arquivo: Edição de 04-10-2018

Secção: Opinião

A inutilidade das coisas
Tempo de leitura: 3 m
 
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A Bárbara e a Violeta vivem numa espécie de aquário de chumbo. Conversam. Silenciam-se. Fazem perguntas para as quais não aguardam resposta. Falta-lhes o mar. Ou a simples noção espacial de saber a direcção que leva ao cabo e ao farol. A música e os cigarros são colocados no mesmo patamar de importância da água – a falta. Sobra-lhes o luar. Mas o luar é, tantas vezes, a luz que ilumina as tragédias. Entendo bem esses ruídos com que as sitiaram e as tentaram calar. O silêncio tem o semblante dos seus rostos. Convivem com ele. É ele que lhes extrai as palavras do ventre.

O suor que escorre das paredes nunca é igual. Se a Bárbara e a Violeta mantiverem as vozes acesas, as paredes daquele aquário de chumbo destilarão memórias e medos. A realidade das coisas que não existem ou das roupagens com que as vestem. A Bárbara e a Violeta são duas flores com sede. Caules secos e estaladiços, capazes de quebrar. Mas as memórias ressurgem e esfriam as flores. Debruçam-se sobre janelas inexistentes. Buscam o toque do mar. Ou a razão da culpa. Como distinguir as vítimas dos culpados? Não esconde o poder as coisas atrás de uma ideia?

A Bárbara tem razão quando afirma que aquela rapariga tinha cabelos cor de fogo e dançava numa tela nunca pintada. Fico feliz por já não ter medo do escuro. Ela sabe perfeitamente como nostalgia pode rimar com utopia. Que parta então. Que procure as ilhas do poente. Se disser que discordo da Violeta não significa que desgoste dela. É forte e protege Bárbara. Chama-a à atenção quando rói as unhas. Mas Violeta não sabe que um fim de tarde pode eternizar-se na memória.

A pureza de Bárbara desperta-a com a questão sobre qual será o cheiro da liberdade. Ambas se multiplicam e deformam frente a um espelho sem resposta. Só nos sonhos de Bárbara é viável o galope de um cavalo. Ou uma espingarda enferrujada. Violeta é incapaz de retratar a essência das pessoas, mas só ela sabe da verdade inventada por Bárbara. Sabe da canção sobre um pássaro azul que a avó de Bárbara jamais lhe cantou. A tristeza escorregadia afinal invade as duas. São tantas as vezes em que uma e outra se sentem ausentes, como se se fossem embora sem sair do sítio.

Numa noite Violeta e Bárbara apercebem-se que são sobreviventes. Que nunca terão sido outra coisa. Bárbara é assaltada por um desejo repentino de dias mais longos e asas de andorinhas, como se evocasse a celebração de dias felizes. Violeta, não. Violeta deseja o outono completo naquela noite. A floração do vermelho e o cabelo da rapariga ruiva que não pintará. Ainda assim, por vontade de Bárbara, colocar-lhe-á uma coroa de flores na cabeça.

Revejo-me agora nesse outono de Violeta. As folhas não se vestem de revolta, Bárbara. Mas sim, a bruma perdeu-se. Concordo. Num arrepio dou por mim nas artes audaciosas do funambulismo. E pergunto-me se não andaremos todos sobre o arame. Será que me coube chegar ao fim dos ciclos e correr o risco de esbarrar num muro ou despenhar-me num abismo? Possivelmente alguém virá buscar-me quando a madrugada chegar sem trazer com ela um café duplo.

Enquanto a manhã surge com aquele cheiro que não engana, poderia juntar-me à Bárbara e aprender o nome das constelações. Brindaríamos as três com água. Levaria um cigarro que fumaríamos a meias retardando o amanhecer. Esperaríamos que batessem à porta para nos virem buscar. Batem sempre, primeiro, à porta.

A tempestade já se ouve ao longe.

(a partir da leitura da obra de Paulo Barrosa, “Auto da Nostalgia”)

Por: Maria Afonso


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