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Edição de 11-10-2018
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Arquivo: Edição de 04-10-2018

Secção: Opinião

Agora Digo Eu
A travessia do deserto
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Com a nomeação da nova Procuradora-Geral da República os partidos políticos, ao que parece, foram apanhados de surpresa e desta vez reagiram de forma ponderada e inteligente. Da direita à esquerda.

A dupla Costa/Marcelo, numa estratégia combinada de um autêntico código de silêncio, souberam encobrir até ao limite a divulgação do nome da nova PGR, jogando a cartada do timing que eles próprios definiram, numa coabitação que até agora ainda não tinha vindo ao de cima, faltando apenas ao líder do PS determinar o tempo político e se calhar o tempo mediático para declarar o apoio à recandidatura de Marcelo, perguntando todos nós se será antes ou depois das eleições legislativas?

Curioso, ou talvez não, é tentar perceber a posição de uns quantos (que por obrigação política, ética e moral) deveriam estar de fecho éclair na boca, mas aproveitando o momento deitam as garras de fora, quiseram mostrar-se para todos percebermos que ainda respiram, ainda estão vivos, esquecendo-se que a travessia do deserto demora muito mais que um simples meio ano.

Reza a história que o povo judeu levou 40 anos a atravessar o deserto, o tal que apenas tinha uns escassos 200 km e, tudo isso por causa da incompreensão da mensagem e da incredibilidade da promessa. A geração descrente (quase) toda ela morreu e foram os netos a vislumbrarem a tal “terra prometida”.

O momento, para certos e determinados políticos, é mesmo o da travessia do deserto, mesmo percebendo que no longo caminho a percorrer existem alguns agradáveis oásis onde se pode recompor a alma servindo estes, única e exclusivamente, para o merecido conforto e descanso a fim de prosseguir o caminho que falta, pois, conforme diz o povo, o caminho faz-se caminhando e no percurso vão surgindo sofrimento, conflitos, tristezas, desânimos, algumas alegrias e poucas vezes outras e novas perspectivas.

Esta é indiscutivelmente uma experiência única onde a reflexão ajuda o homem a enfrentar todas as dificuldades, a calcular as forças em presença e, se depois de tudo isto ainda houver coragem, força, garantia e alguma possibilidade de assentar arraiais, então faça-se a aposta mesmo percebendo que a mesma água dificilmente voltará a passar debaixo da mesma ponte.

Stefan Zweig aconselha:

«Alguém compôs um dia um hino ao exílio. A natureza humana gosta destas paragens. Sobretudo, o génio criador precisa duma solidão para medir, das profundezas do desespero, das distâncias do exílio, o horizonte da sua verdadeira missão. As mais importantes mensagens da humanidade vêm do exílio: Moisés, Cristo, Maomé, Buda, foram todos forçados a penetrar primeiro no silêncio, longe dos homens, antes de poderem fazer ouvir a palavra. A cegueira de Milton, a surdez de Beethoven, a prisão de Dostoiewsky, o encerramento de Cervantes, a residência forçada de Lutero em Warthurgo, o exílio de Dante, o afastamento voluntário de Nietzsche para o meio das zonas geladas de Engadine, tudo isso não foi senão uma secreta exigência do seu próprio génio, oposta ao desejo superficial do ser humano. Ora mesmo no mundo político, o mais baixo e o mais terrestre, uma retirada dá ao homem de Estado uma nova agudeza e concepção, um meio melhor de reflectir e de calcular o jogo das forças em acção. Só assim o homem de Estado adquire a verdadeira clarividência política».

Independentemente da recusa da popular “valsinha da medalha”, José Mário Branco, na sua “Travessia do Deserto”, afirma:

«Que caminho longo. Que viagem tão comprida. Que deserto tão grande. Sem fronteira nem medida. Este peso calado, Queima o tempo parado. Queima o Rio e a ponte. Águas dos meus cansaços. Semeai os meus Passos».

Pois bem, não sei se o Rio está queimado e terá regresso e os tais Passos de que fala Mário Branco serão de caranguejo, de lebre ou serão mesmo passos de coelho…

Por: Albino Bárbara


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