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Edição de 11-10-2018
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Arquivo: Edição de 04-10-2018

Secção: Editorial

Editorial
“Até que a voz nos doa”
Por: Luis Baptista-Martins
Tempo de leitura: 4 m
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1. Aqui há uns anos escrevi que enquanto em Lisboa, em órgãos de decisão, houvesse naturais ou “filhos” do interior ainda era possível inverter a tendência ancestral de desinvestimento e ostracismo do interior. Enganei-me! Os “filhos” do interior por provincianismo, bacoquice ou arrivismo, são os primeiros a deslumbrar-se com a luzes da capital e olham para a terrinha, onde só vêm pequenez e pedinchice, com soberba – quanto mais distantes melhor: Salazar partiu do Vimieiro e nunca mais olhou para trás. Por isso, não devemos nunca ficar à espera de figuras salvíficas ou de programas milagrosos, porque quem tem unhas é que toca guitarra, temos, todos, esforçadamente de trabalhar e contribuir para o desenvolvimento das nossas comunidades. E o sucesso que possamos conseguir, no interior, é sempre com mais esforço do que resultados similares no litoral…

Obviamente, devemos defender políticas globais e estratégias estruturantes que permitam o desenvolvimento do todo e não apenas das partes. Infelizmente, e salvo algumas medidas avulsas, o país raramente é pensado como um todo; as políticas têm quase sempre um caráter centralista e quando alguma medida é anunciada para alterar o paradigma, mais parece uma tentativa para maquilhar o centralismo habitual e deixar tudo na mesma. A força centrifugadora de Lisboa anula de forma por vezes obscura toda e qualquer tentativa de mudar o que seja. É assim! E é assim há centenas de anos. E o mais extraordinário é que a tendência é de crescimento de Lisboa em detrimento da “província” (sendo que, para um lisboeta, “província” é todo o país acima de Vila Franca de Xira ou para lá da “margem-sul”).

O ministro da Saúde anunciou que o Infarmed iria mudar para o Porto. António Costa retificou o anúncio. O Conselho de Ministros marcou mesmo data para a transferência, janeiro de 2019. Quase um ano após o anúncio, o governo recua e manda criar uma comissão para certificar o que todos já sabemos: a Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde (Infarmed) não pode ser deslocalizada de Lisboa para o Porto. Ora, se o país não consegue mudar um serviço da “capital do império” para a “capital do norte”, o que dizer de outros serviços que poderiam funcionar noutras cidades mas estão em Lisboa? Se 300 funcionários, bem pagos pelo país, conseguem abortar uma decisão tomada em Conselho de Ministros, que serviços poderão ser descentralizados? E se é compreensível que esses funcionários não queiram sair da capital, a verdade é que durante dezenas de anos milhares de portugueses foram deslocalizados da periferia para Lisboa. E milhões de pessoas tiveram inclusive de emigrar para o estrangeiro – mas 300 portugueses não aceitam mudar de Lisboa para o Porto e impõem essa vontade ao país (naturalmente que é legitimo defender o status quo…).

2. A entrevista do reitor da Universidade de Lisboa à “Renascença” e ao “Público” mereceu uma vasta onda de indignação na região. Mais uma vez, António Cruz Serra, com o proselitismo habitual, opôs-se à redução em 5% das vagas no ensino superior de Lisboa e Porto afirmando que «não vou ver um filho de um CEO de empresas do PSI20 a estudar no interior» (por honestidade intelectual devemos ler toda a entrevista e contextualizar a frase no parágrafo: «O desenvolvimento do interior não se faz com medidas destas nem à custa dos alunos. As políticas fazem-se com os recursos que se geram pelo Estado, não à custa do dinheiro das famílias. Eu não vou ver nenhum filho de um CEO das empresas do PSI20 a ir estudar para as universidades do interior por causa disto. Do ponto de vista social, esta medida não é louvável»). Na verdade, os filhos dos CEO do PSI20 foram estudar para a Suíça ou para Londres…

Como é evidente, a indignação não vai mudar nada, nem vai ser ouvida pelo destinatário. Mas, além de fazer bem ao ego, contribui para a consciencialização de que não podemos silenciar-nos perante o menosprezo e o desdém com que constantemente são tratadas as instituições, as empresas e as pessoas que vivem no Portugal deprimido e de baixa densidade. Por isso, quando João Canavilhas, vice-reitor da UBI e membro do Conselho Editorial de O INTERIOR, recorda que «receber filhos de quem trabalha arduamente» deve ser motivo de orgulho porque, isso sim, faz «de nós uma universidade verdadeiramente nacional e que presta um serviço público de qualidade». Mesmo sem cavalgar a onda populista que domina as redes sociais, defender a qualidade e o trabalho feito nas nossas instituições de ensino superior é também a nossa obrigação. Por tudo isto, e “até que a voz nos doa”, resilientes, temos, sempre, de protestar e contestar as opções centralistas e estigmatizantes para o interior.


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