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Edição de 16-08-2018
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Secção: Opinião

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A dramática vida de Manuel Cegonha
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Limpopo, 1948, foi o ano em que nasceu, filho do Sr. Cegonha que tinha uma fazenda onde metade da gente se abastecia e de um encontro fugaz com uma jovem lindíssima que andava a pastorear. Cegonha não tinha outros filhos e perfilhou este sem hesitação.

Manuel foi educado pela D. Ermelinda, de origens no Alentejo e habituada aos destemperos do marido. Não tinham filhos e este foi uma bênção. Manuel Cegonha viu os hipopótamos e os jacarés do Limpopo. Assistiu nos anos 60 às travessias das manadas de boi-cavalo e de búfalos nas pradarias do rio. Conhecia o rugido do leão e sabia se buscava alimento ou dias de cio. Depressa se viu à frente do negócio e ficou com a machamba do pai. Manuel Cegonha encheu o Limpopo de crianças, deu jus ao nome trazendo vida a vários ventres. Em 1974 ficou em África e não deixou a sua mercearia, nem quando os tiros se cravaram na parede. Casou com uma jovem europeia que foi fazer voluntariado e ali encalhou para sempre. Começou por escolarizar as crianças do Cegonha e acabou juntando-lhes mais dois. Chegou 1979 e um dia disse o que pensava, criticou o governo da província, saíram-lhe as tristezas de ver fome, de ajudar mais que o governo, de ver as pradarias percorridas por gente em debandada. No Limpopo já não havia hipopótamos nem jacarés.

Fugiu com a mulher e cinco dos outros filhos para Coimbra. Abriu uma mercearia onde se recompôs financeiramente. Educou todas as crianças. Quando podia passeava junto do Mondego a sonhar com os grandes predadores, a pensar na sua África. Nunca voltou e acabaria numa cama de hospital, em Coimbra, tratado por gente que nunca ouviu o leão, nunca cheirou a terra quando despontam as primeiras monções.

Calhou-me dizer que tínhamos de retirar-lhe a perna gangrenada, que a infeção estava já no períneo. Falámos muito e contou-me da morte da mulher, da emigração dos filhos e da solidão com que vira morrer um velho leão mordido. Escolheu não receber tratamentos nenhuns e partiu enrolado nos lençóis numa noite de Lua Nova.

Por: Diogo Cabrita


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