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Edição de 11-10-2018
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Arquivo: Edição de 09-08-2018

Secção: Opinião

Termidor
Tempo de leitura: 4 m
 
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1. A profiláctica história do vereador Robles rendido aos encantos do capitalismo, só por si, está mais do que explicada e retweetada. Falta retirar a consequência política mais importante do episódio: o BE está pronto para ser igual a todos os outros partidos. Até agora, tem ocupado um lugar modesto na cadeia alimentar do poder. O que significa que a possibilidade da corrupção é proporcional aos meios de que dispõe. Esta história deu sinais de que já atingiu a maturidade necessária para mais altos voos...

2. Como outra qualquer fórmula, os diferentes regimes políticos, ao longo do tempo, apresentam variáveis e constantes. As primeiras são o cerne da luta política e das construções ideológicos. As segundas são tema para filósofos e cépticos. Uma das constantes mais interessantes é a percentagem relativamente estável de ganhadores e perdedores. Observável em todos os modelos económicos e correspondentes sistemas políticos. O que realmente varia é a forma como os ganhadores se revelam e subsistem. Ou a maior ou menor arbitrariedade com que os perdedores são criados e revertidos. Nos regimes ditatoriais com economia planificada, a arbitrariedade é brutal e o mérito é substituído pela subserviência. Nos regimes onde uma economia de mercado coexiste com a ausência de democracia, os ganhadores e os perdedores substituem-se a um ritmo alucinante, sem regras, sob a vigilância de um Estado omnipresente. Só nos regimes democráticos consolidados, com uma economia aberta, é possível ganhadores crónicos coexistirem com perdedores transitórios e uma percentagem do ganho amenizar, com moderação, os custos da perda. Só aí ganhar e perder são questões de motivação, inteligência e mérito. Com formas diversas de essas qualidades se revelarem. Em que nem sequer é a sua manifestação estatística que pode definir a virtude individual, ou colectiva.

3. De acordo com a moral aristocrática, que antes prevalecia na política e de que Churchill foi, talvez, o último ilustre representante, só havia dois motivos sérios para o opróbrio: a covardia e a homossexualidade. Uma honesta e sólida bebedeira, mesmo num homem com responsabilidades públicas, era perfeitamente desvalorizada. Hoje, com uma classe política triunfante submetida à ditadura do sorriso e com hábitos de burocrata, a ebriedade, ou um momento de descompostura, são pecados capitais. E a hipocrisia pode servir-se de um sem número de eufemismos. Um deles é, pelos vistos, “ciática”.

4. A última revista “Ler” inclui um belíssimo texto de Isabel Rio Novo, intitulado “Lugares de Augustina”. Uma visita guiada aos locais marcantes na vida da escritora. Uma dessas etapas passou-se na casa duriense onde Agustina viveu na adolescência. Que serviu de cenário para “Memórias Laurentinas” e onde foram rodadas algumas cenas de “Vale Abraão”. Foi aí que a escritora escreveu o seu primeiro romance, aos 15 anos. E foi aí que, mais tarde, situou o seu mergulho decisivo nas águas profundas da criação literária. Confessando que, ao descobrir essa vocação para (re) inventar o mundo, soube que se iria para sempre afastar dos outros. Talvez isto, dito assim, a seco, soe a mistificação. Por essa razão, não será descabido adivinhar que, esse movimento, essa prostração, só existam como uma espécie de luz refractada, quando atravessa a superfície da água. Um artifício que só faça sentido para a escritora poder observar todas as gradações de uma real proximidade que queima.

5. Recentemente, o carácter facultativo da leitura de “Os Maias” no secundário foi motivo de intensa polémica É curioso verificar que, em “As Farpas”, o próprio Eça criticava as leituras obrigatórias na instrução pública. Referindo, grosso modo, que esse método, demasiado penoso para um adolescente, era a garantia do adulto que viria depois deixar de ler. A questão é pertinente. E põe em causa a utilidade pedagógica do expediente. Porém, em meu entender, neste caso os benefícios superam os inconvenientes. Há certas obras literárias, cuja leitura orientada pode abrir janelas na mente de um jovem que nunca mais se fecharão. Durante o secundário, fui “obrigado” a ler “Esteiros”, de Soeiro Pereira Gomes; a peça “As Guerras do Alecrim e da Mangerona”, do Judeu; as “Viagens na Minha Terra”, de Garrett; “Constantino, guardador de vacas e de sonhos”, de Alves Redol; alguns “Sermões”, do Padre António Vieira; o “Amor de Perdição”, de Camilo; os inevitáveis “Maias”; “O Fogo e as Cinzas”, de Manuel da Fonseca; a “Farsa de Inês Pereira”, de Gil Vicente; e “O Velho e o Mar”, de Hemingway. Alguns faziam parte dos programas escolares e outros foram sugeridos por um professor de português que ainda hoje recordo com gratidão. “Os Maias”, como refere VPV, é um livro sobre a imitação. O incesto e as tramas sentimentais são acessórios romanescos. Eça fala-nos de um país que só sabe imitar. E, ainda por cima, mal. Talvez este dedo apontado a um destino a que ainda não soubemos escapar incomode tanto hoje como há 140 anos. Porque a “choldra” de que falava Ega pouco mudou.

Por: António Godinho Gil

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


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