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Edição de 11-10-2018
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Arquivo: Edição de 09-08-2018

Secção: Opinião

Tanto para se mudar de assunto...
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As refeições lá de casa, nunca foram para meiguices! Às vezes, começavam com a mãe a avisar que quando o pai chegasse é que ia ver. O que, de acordo com a falha em que fora apanhada, me dava alguma vantagem para, por um lado especular sobre o tipo de “vistas” que me esperava e, por outro lado, engendrar escapatória à altura das alhadas em que me metia. Está-se mesmo a ver que, previamente munida de uma coleçãozita de assuntos, conseguia com muito mais facilidade desviar a conversa para terreno que me fosse favorável.

“Porque demoraste tanto a chegar da escola?” “Ah, já me esquecia, a minha professora disse que preciso de uns lápis de cor novos”. “Onde é que andaste, toda a tarde?” “Olha, a madrinha já tem outro gato!” O que é que a mim me interessa o gato da madrinha?” “É que este é mesmo igualzinho ao que nós tínhamos...” Esquivando-me a respostas, fatalmente incriminatórias, lá ia conseguindo silenciar o adversário que, num volte face, acabava a sentir-se apanhado numa qualquer falha parental. Secretamente orgulhosa desta tática, vivi largo tempo convencida de que eu própria a tinha inventado. Peculiaridades infantis! Tudo coisas, supostamente, desvanecidas pela escola dos livros e da vida.

Supostamente, porque continuo a observá-las tanto em adultos, como em pequeninos da pré-escola. Facto que ora me espanta, ora me irrita. “Diz-me qual o serviço aonde me devo de dirigir.” “Ah! Eu não costumo estar aqui, sabe? Vá, venha cá que eu lhe digo onde é que deve de ir perguntar.” Pronto: chego como cliente, parto como néscia! E, se bem que algumas destas situações ainda me irritem, lembrando-me que posso sempre gritar, como o meu pai fazia, “quero lá saber onde é que costuma estar!” costumo preferir ficar-me pelo espanto. Não vá alguém replicar que era costume estar nalgum sítio parecido com o meu! Descubro, assim, que continuo algo hábil na arte de mudar de assunto. Eu e o resto da humanidade. Nada como, na iminência da aproximação de “vistas” potencialmente temíveis, provocar deliberadamente um impercetível e eficaz trocar de agulhas. Aposto que a maioria ainda o faz! Pelo menos a maioria dos nascidos, como eu, no tempo em que à mesa é que se ajustavam as contas na socialização da garotada. Muito ensaio na arte de mudar de assunto, assim se fez! Ele era para não macular a imagem, ele era para não ser apanhado a mentir, ele era para não confessar o inconfessável... Pode parecer pouco honesto, mas acho que acaba por não ser tão mau, tão básico, nem tão ilegítimo, como mentir com todos os dentes e, no fim, ter a lata de nem disfarçar.

Por exemplo, estão a ver o presidente daquele país que adotámos como referência sociológica? Agora, tentem lá lembrar-se do outro que ainda tinha a cortesia de mudar sempre de assunto quando lhe perguntavam o que tinha andado a fazer com uma Mónica. Ah! Era muito mais interessante, púdico e educado que este latoeiro descarado que passa a vida a negar o inegável, não era? Modernices, provavelmente, muito perigosas. Caso para perguntar, se já nem a conservadora e puritana América aparece para o almoço, a quem é que as mães se irão queixar dos desvairados penteados com que, eventualmente, a garotada, as possa vir apoquentar?

Por: Fidélia Pissarra


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