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Edição de 12-07-2018
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Arquivo: Edição de 05-07-2018

Secção: Opinião

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ESTSC
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As aulas são um fascínio se podemos, de algum modo, controlar as pessoas a quem queremos transmitir saber. Por outro lado, a sabedoria é uma amalgama de peças equilibradas em estantes diferentes. Saber que o sorriso é produto de músculos e que estes são comandados por emoções que não sabemos como se constroem no cérebro. Articular o mesmo sorriso com um perfume e dar-lhe uma roupagem de tintas e pós de arroz. Perceber como os dentes ajudam a sorrir, e entender os nervos que se entrelaçam nos feixes do trigémio e em parte no facial. Saber mover cada um dos músculos numa performance de ator. Os mesmos músculos ajudam a voz, os sons guturais, os percutidos palatais, os sibilados e sussurrados tão portugueses. Explicar de modo diletante, saltitando entre coisas que fascinam e imposições curriculares, utilizando técnicas de sedução, de enfrentamento, de provocação, de exigência, mas sem se queixar deles ou dos objetivos pretendidos é a dança do ensino.

O saber não se esculpe nem se injeta. O conhecimento não abre uma porta e preenche o cérebro. A ideia de uma aula está próxima da peça de teatro e da ciência, catapulta o professor ao lugar de palhaço ou de entertainer e seduz de alíneas e de palavras novas aquelas cabeças virgens que nos deram para trabalhar. Dar aulas tem de ser um fascínio e eu confesso que fui feliz quando as dei a convite do meu querido Francisco Cabrita Grade, que Deus deve ter próximo. Dei aulas uns seis anos na ESTSC quando em Radiologia o doutorado único era o amigo Paulo Isabel que conheci em Paris. Tive na altura alguns momentos bons que me arrepiaram. Envaideceu-me saber que alunos de outros cursos queriam assistir às minhas aulas. Aulas que dava às oito da manhã e falavam de Anatomia. É uma subida honra ter gente que nos quer ouvir sem outra razão que estar ali. Acrescentei Patologia e Fisiologia porque não consigo ver um osso sem função. Não consigo cativar sem explicar o que é normal e o que é doença. Fui muito excessivo porque não deixava tirar apontamentos, não queria folhas escritas com aquilo que sabiamente está sempre melhor exposto nos livros que na minha dissertação. A minha caminhada era empurrar para o conhecimento e tentei convidando amigos a mostrar como se move o corpo, levando os alunos para aulas de operações, e também a fazer urgências comigo. As aulas de Anatomia podiam ser na sala, podiam ser no jardim, podiam ser com o Flique – o meu cão. Por vezes usava umas bolas macias que atirava aos mais sonolentos. Era extravagante e excessivo – sim! Mas quem me conhece sabe que não sou discreto, nem tímido, nem introvertido, nem calado. No ano em que repensaram o convite, por força da Lei, ou por estratégia, ou porque havia alternativa, fui ao jantar da escola naquela semana da Queima. Entrei num restaurante que já estava ao rubro, já suava a cânticos e excessos. Vim do turno de dia na Urgência e não cheguei a horas. Entrei discreto e dirigi-me para o lugar que seria meu. Os alunos dos cinco anos que já tinha lecionado estavam misturados e de modo espontâneo começaram a pôr-se de pé e a aplaudir. Caminhava eu e levantavam-se eles de capa e batina. Eram dezenas de mãos que batiam e eu senti os olhos húmidos, baixei a cabeça um pouco para que não se visse. Devia ter-me lembrado que erguendo o queixo contemos o choro. Foi um aplauso de jovens e entre eles estavam os que hoje são o futuro, os que hoje carregam a responsabilidade de lecionar de modo profissional, o que tentei um dia de modo empenhado, mas em part-time. A ESTSC soube valorizar-se com uma geração de estrelas para brilharem amanhã. Passámos o testemunho do passado pré Bolonha para um futuro altamente eficiente num aplauso que eles não sabiam ser adeus. Os que ali iam, empenhados e dedicados ou não, tinham de ser substituídos pela avalanche da nova exigência e do futuro mais glorioso dos politécnicos. Obrigado amigos.

Por: Diogo Cabrita


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