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Edição de 12-07-2018
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Arquivo: Edição de 05-07-2018

Secção: Opinião

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1. Uma das bandeiras mais consistentes da novíssima esquerda é a da identidade de género. Partindo sempre do pressuposto de que o género é uma categoria histórica, social e culturalmente construída. A reivindicação faz todo o sentido, desde que destinada a salvaguardar a liberdade e autodeterminação dos indivíduos. No entanto, se traz consigo o policiamento da linguagem e dos comportamentos, em vez de libertar, passa a reprimir. Em vez de centrada nos direitos fundamentais, passa a palavra de ordem de grupos. Mas há ainda um outro problema de que não se ouve falar. A identidade biológica fica aquém do género. O género vai muito para além da orientação sexual. E a identidade tout court é muito mais vasta do que a definição do género. A tutela da personalidade diz respeito a várias realidades, algumas até mesmo contraditórias, ou inconciliáveis, que compõe essa identidade. É essa a riqueza de cada ser humano. E é esse o munus da literatura, por exemplo. No final dos anos 70, Pascal Bruckner e Alain Finkielkraut publicaram um livro fundamental na matéria: “A Nova Desordem Amorosa”. Pegando na soberania do eu, herança maior do Maio de 68, mas descartando o cabotinismo da chamada revolução sexual, puseram em causa a unidimensionalidade das conquistas a ela associadas. A obra é fascinante, a vários níveis. E traz para o debate uma questão fundamental: são as circunstâncias concretas dos indivíduos, os seus medos, as suas fantasias, as suas limitações, que determinam a sua identidade afectiva. E esta é o pressuposto de tudo o resto. Que pode não ser coisa nenhuma, à espera da sua oportunidade.

2. Continua patente no Museu da Guarda uma notável exposição de Paula Rego, integrada no SIAC 3. Até agora, só tinha visto, “ao vivo”, as três telas expostas e que integram o acervo da Fundação Serralves. Pois que, grande parte das obras expostas veio da ‘Casa das Histórias’, em Cascais. Nomeadamente, as notáveis litografias do ciclo ‘Jane Eyre’ e, creio, ‘Nursery Rhimes’. A certa altura, li que o fascínio da artista pela personagem e ambiências do épico vitoriano de Charlotte Brontë surgiu da leitura de “Vasto Mar de Sargaço”, de Jean Rhys. Uma obra surgida em 1966, inspirada na personagem Bertha, do clássico. Ora, esta obra foi precisamente a minha última aquisição em alfarrabista. E a menção mais não fez do que aumentar o apetite pela sua leitura. Voltando ao universo exclusivo de Paula Rego. Para lá das suas peculiaridades temáticas, trata-se de um mundo onde o corpo reina. O corpo feminino. Um hino, não à sua beleza, ou perfeição, mas às suas mutações. À sua geometria polimorfa. Que alberga o desejo e a decrepitude, a opressão e a fantasia. Uma fantasia particular, única, por vezes sombria, mas que só a genialidade da artista resgata das sombras e nos obriga a decifrar.

3. Há dias, sugeria a um cliente alemão, residente em Portugal, que indicasse testemunhas que pudessem comprovar danos não patrimoniais. Percebi logo a sua incomodidade. Tendo-me questionado, após alguns instantes, se lhe estava a pedir para alguém prestar “falsos testemunhos”. Como reacção imediata, ter-lhe-ia respondido, de modo a não deixar dúvidas, que não sugiro aos meus clientes, ou a terceiros, que cometam crimes. Bem pelo contrário. Mas não fui por aí, mesmo sabendo que era verdade. À minha frente, atravessou-se aquela linha imaginária que divide a Europa da ética católica da Europa da ética protestante. E que passa, algures, pela fronteira entre a Valónia e a Flandres. E depois desce, pelo Reno, atravessa os Alpes e termina nas margens do rio Pó. Para um alemão, regra geral, está fora de causa mentir a uma entidade pública, tenha ela o rosto que tiver: um agente do fisco, ou um magistrado. Em contrapartida, para um português, e desde que isso lhe seja favorável, não constitui qualquer problema enganar, ocultar, burlar agentes e órgãos da administração pública. Claro que ninguém é melhor nem mais perfeito. A questão é que, nos países a norte dessa linha, os cidadãos confiam no Estado. E por isso nada têm a esconder-lhe. E o Estado retribui essa confiança. Mentir num tribunal, mais do que um crime, é uma ofensa sem perdão a todo um edifício moral e político. A sul dessa linha, é precisamente o contrário. A possibilidade da remissão do pecado, pela confissão, contagiou a vida social, através da permissividade e da impunidade. O Estado não confia nos cidadãos. E os cidadãos só não o enganam se não puderem. A lei é, muitas vezes, um manual de instruções prolixo, que ninguém lê e ninguém faz respeitar. Mentir num tribunal, ou ocultar rendimentos ao fisco, é ‘fazer pela vida’ e ninguém leva a mal. É claro que não disse nada disto ao meu cliente. Só lhe expliquei, em pormenor, a conveniência de a sua pretensão ser suportada por prova testemunhal. E que na Alemanha seria exactamente o mesmo. Creio que fui convincente...

4. O verdadeiro cínico tem como lema a “Autopsicografia” de Pessoa. Sobretudo a última parte. Pois se a dor não fosse verdadeira, seria simplesmente um mistificador. Ora, o verdadeiro cínico é também, por tradição, um desastre nas chamadas relações amorosas. Embora a tradição já não seja o que era. Um desastre, porque se esforça para isso. Para a dor parecer verdadeira. Mas sabe que há um limite. De outra forma, passava por insensível. E a dor, que deveras sente, mais não seria do que estratégia. O limite do cínico é, pois, a razão da sua sustentabilidade. Finge a dor, porque sabe que, se não o fizesse, não seria levado a sério. Mas como não pode ocultar de si próprio a dor que não finge, nem desembaraçar-se dela sem um pesado preço, prefere pagar a pronto e retomar o jogo. Até acabar o crédito. É este o seu segredo.

5. Mais cedo ou mais tarde, temos de ter força para lançar uma pergunta e muita coragem para lhe responder: será que alguém quer realmente saber de nós para alguma coisa? Antes de alvitrar, não se iludam. Muitas vezes, só valemos como adereço para os outros comporem a sua paz interior. Ou como penhor das suas convicções. Ou como duplo no filme das suas fantasias. O que realmente fomos, ou somos, ou aspiramos, não interessa rigorosamente para nada. Mas também temos que manter sempre uma fresta aberta para o acaso e a incerteza. Para a inesperada doçura. Tomemos nota. E depois demos a resposta.

Por: António Godinho Gil


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