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Edição de 12-07-2018
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Arquivo: Edição de 05-07-2018

Secção: Opinião

Tresler
Do Alentejo aos Açores
Tempo de leitura: 5 m
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1.Chamar alguém pela alcunha pode ser a morte do artista. Porque os visados raramente gostam ou porque grande parte das alcunhas não se destinam à interpelação direta do visado pela alcunha. Quase sempre elas constituem uma maneira de os outros comunicarem de modo supostamente mais prático e fácil sobre alguém que tem aquele epíteto colado “malgré lui”. A não ser que a alcunha seja herdada de familiares e nesse caso ela perdeu o seu sentido inicial, mantendo no entanto o seu carácter distintivo.

Tratar alguém pela alcunha é fenómeno do mundo rural, lugar de comunicação direta e oral, lugar aberto e de comunidade, lugar de casas de porta sem chave. A cidade, com o direito da privacidade instituído na vida moderna, aceita dificilmente este à-vontade instituído como instrumento de comunicação. Quase sempre o nascimento da alcunha teve a ver com a distinção entre vários Zés, vários Manéis, vários Antónios, que é mais fácil reconhecer como Zé da Estela, Manel Sardinha ou António Manjerico. Na cidade, sem relações de vizinhança, a alcunha hoje é fenómeno perigoso e em idades baixas pode aparentar-se ao bullying, se a alcunha for humilhante. De qualquer modo a alcunha contém sempre os dois lados: o da transparência, da denotação (porque o visado é mesmo “aquilo” ou tem mesmo “aquilo”) e o da expressividade e da emoção (ao dizer-se aquilo expressa-se um sentimento, toma-se uma atitude que não é neutra).

A alcunha nasce como qualquer coisa, com um criador, mas é preciso, para que ela se imponha, que a comunidade à sua volta aceite a alcunha como ajustada e a utilize para designar “aquele” ou “aquela” (uma espécie de sancionamento coletivo). Muitas vezes a alcunha tem outra função, a de discriminar, designando diferentemente aquilo que é diferente, mas chegando curiosamente a todas as classes sociais (ninguém tem privilégios de não ter alcunhas).

Quando nos oferecem um livro sobre alcunhas alentejanas (ver abaixo), a tendência é ir logo ver as mais insidiosas, as que apontam defeitos físicos, taras sexuais, etc. E neste âmbito há no Alentejo (e supostamente no resto do país) todas “essas” palavras (essas mesmas em que o leitor está a pensar). Curiosamente cerca de 80% são atribuídas a homens e a mesma percentagem não veio por herança familiar, são apenas pertença do visado. O livro que aqui tenho conta mesmo em muitos casos como nasceu a alcunha. Diga-se para acabar que só um terço dos visados aceita bem as suas alcunhas.

2.Suponhamos que morre um amigo que muito prezamos e que é uma figura de destaque no meio em que vivemos e dizem-nos: “Escreve aí um “in memoriam” por este fulano”. Há modelos para estes textos? Aqui vai um. Recentemente, a propósito de uma matéria escolar, reli “Um génio que era um santo”, texto de 40 páginas das “Notas Contemporâneas” escrito por Eça de Queirós na sequência do suicídio de Antero de Quental. É uma lição de escrita que sugiro aos apreciadores de Eça e a quem queira aprender a escrever. Escreve assim sobre uma figura a partir da qual regressa aos tempos da juventude, com Antero, 20 anos, grenha e capa ao vento, nas escadarias da Sé Nova de Coimbra, a lançar as suas diatribes revolucionárias. O texto vai caminhando de descoberta em descoberta, desde este primeiro encontro, passando pelas tentações políticas de Antero, a sua inovadora poesia de pendor filosófico, a criação da Liga Patriótica do Norte e a participação com Oliveira Martins no surgimento do movimento socialista em Portugal. Chega então o momento em que se convence mesmo de que é um homem de ideias e não um político de compromissos, jogos e cedências. Nesse momento, arreda-se da política, cuida das suas duas filhas adotivas, a certo momento afasta-se com elas para os Açores, até ao momento fatal em que “concluindo que a vida lhe não convinha afastou-se dela voluntariamente”.

O texto não se fica pela figura de Antero, caracterizando todo o enquadramento político e social que leva Antero e outros inteletuais a desafiar a ordem estabelecida com as Conferências do Casino e a Questão Coimbrã. Interessante a visão de Coimbra nos anos 70 do séc. XIX, com ideias e mais ideias a serem descarregadas em livro, vindas dos países do centro da Europa. Ideias de inovação e mudança, a contrastar com a mediocridade instalada no regime e nas instituições. Arrepiante é o quadro do ensino universitário que Eça e Antero frequentavam em Coimbra mas que ainda se aproxima de algumas situações de hoje. Criticam assim Eça e Antero a Universidade e todas “as suas formas diferentes de comprimir, escurecer as almas”. E enumera Eça: “o autoritarismo, anulando toda a liberdade e resistência moral”; o “favoritismo”, levando os estudantes a “vergar a espinha”; o “literalismo”, com a exigência de responder às perguntas com as palavras decoradas das sebentas; o “praxismo”, já naquela altura a tutelar as mentes; as badaladas ordeiras da “cabra”; a “chamada” nas aulas, com “o terror disciplinar de quartel”.

É um texto magnífico que acaba frisando a dignidade de Antero, o seu carácter e o seu elevado nível intelectual. Este homem, que “muito amou porque muito compreendeu”, “era um Génio e era um Santo”, a “abelha que fazia o mel e a cera”.

(Tratado das Alcunhas Alentejanas, de Francisco Ramos e Carlos Silva; Notas Contemporâneas, de Eça de Queirós)

Por: Joaquim Igreja


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