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Edição de 21-06-2018
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Secção: Opinião

Tresler
Fátima sempre nunca
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Se falar do Padre Mário da Lixa, tenho a probabilidade dos leitores identificarem melhor a pessoa do que se disser “Padre Mário de Oliveira”, autor de “Fátima nunca mais”. O autor, que foi uma voz incómoda para a ditadura salazarista, foi pároco em Macieira da Lixa e aí desenvolveu uma pastoral algo estranha para a hierarquia católica. Nos anos 60 foi preso várias vezes pela PIDE e exonerado das suas paróquias pelos bispos em outras tantas ocasiões. O incómodo eram as posições de esquerda, a consciencialização das diferenças sociais, a denúncia da guerra colonial e… o desassombro ao afirmar a rejeição das chamadas “aparições de Fátima”.

O livro “Fátima nunca mais” reúne o conjunto de textos que o jornal “Fraternizar” (que o padre Mário de Oliveira dirigiu) publicou a propósito do fenómeno das aparições. O autor relaciona o fenómeno com o aproveitamento nos anos 30 pelo Estado Novo da abertura da Igreja à aceitação das aparições como “autênticas”. Entre 1917 e 1930 a Igreja tinha-se colocado frontalmente contra aquelas mas, a partir dos anos 30 e da consolidação do regime soviético, Fátima aparece como “tábua de salvação” (no plano religioso) do regime político conservador instalado em Portugal. As referências à Rússia nos documentos da Irmã Lúcia, escritos só nos anos 30 a pedido do bispo de Leiria, têm a ver com este ambiente político e com a necessidade de manter a população submissa e conformada com a sua situação miserável, culpa, segundo Lúcia, não do governo de Portugal mas da sua própria conceção como «pecadora».

O padre Mário é frontal quanto às aparições e aos milagres: as “aparições” são meras elucubrações de mentes fracas e dominadas pelos discursos «missionários» daquele tempo; quase sempre também fenómenos femininos, prontos a «ver coisas» e a descobrir Virgens Marias em qualquer sítio (há muitas “aparições” em todo o mundo, embora sem o sucesso de Fátima). Todo o discurso à volta das aparições é afinal, diz o padre Mário de Oliveira, a reprodução da vulgata da “Missão Abreviada”, espécie de catecismo “ultra”, a divulgar uma pastoral do medo (do inferno), do pecado e do sacrifício, amplamente difundida pelos missionários nas suas incursões pelas paróquias.

A conceção do homem como pecador, a oração mecânica do terço por essa intenção, a auto-humilhação e o sacrifício pessoal, tudo isto colide, segundo o autor, com a mensagem do Evangelho, mensagem de amor e de vida, mensagem de aceitação, fraternidade e acolhimento dos mais desgraçados e dos mais pecadores, com quem Cristo acompanhava, e contrária à ação dos dois pastorinhos mais pequenos que, ao se autocastigarem (pelos pecadores), apressaram a própria morte. A tentação dos milagres no espaço de Fátima aparenta-a o autor ao desafio do Demónio a Jesus quando o desafiou a saltar do templo ou a destruí-lo para depois o (se) salvar. A proeminência da Virgem Maria no centro da religião popular assemelha-a às crenças pré-cristãs nas deusas da fertilidade. «Não», diz o padre Mário de Oliveira, «é Cristo que está no centro da religião cristã» e não a Senhora de Fátima erigida em ídolo universal, todo o contrário da figura humilde e discreta que Maria assumiu na vida do filho.

Embora seja compreensível a atitude de fé de um povo que pratica a religião à maneira «tradicional», diz o autor, já o mesmo se não pode dizer da hierarquia da Igreja que, ao legitimar este culto, transformou Fátima num potentado comercial e as cerimónias «num confrangedor espetáculo de pagadores de promessas». Isto é «demoníaco», diz ele.

O reverso da análise do Padre Mário de Oliveira podemos encontrá-lo nós se pensarmos que é de sempre esta atração das massas pelo fenómeno do milagre, a ânsia de qualquer coisa que nos excede e que nos pode salvar quando a força humana já não pode. Tudo isto se cristalizou nas civilizações em volta de crenças em seres superiores, de lugares encantados ou centro de peregrinações, de pessoas com mais poderes que outras, mágicos ou divinos, em suma da chamada “religião popular”. Quando vemos as pessoas caminhar a pé para Fátima ou repetir vezes em conta as Avé-Marias ou os Padre-Nossos na Capelinha das Aparições, a pedir ajuda, isso só significa que, apesar do racionalismo e do século das luzes, as pessoas continuam a precisar de acreditar em qualquer coisa que seja de outra ordem do que elas. Aconteceu realmente uma mulher aparecer a três crianças em maio de 1917? Claro que não, à luz do pensamento científico e da análise factual. Teria sido diferente se a Igreja não tem invertido a sua posição em 1930? É provável que sim, à luz do que aconteceu com outras “aparições” entretanto não certificadas. Mas, tendo em conta a situação de devoção instituída hoje em Fátima, quem acredita não precisa e muitas vezes não gosta que contestem a sua fé. Para os católicos que não acreditam em Fátima (não é obrigatório acreditar para se ser católico), resta esperar que pouco a pouco a pastoral do medo, a febre comercial e o culto da promessa instaurado em Fátima se vão substituindo por formas menos paganizadas de devoção.

(Padre Mário de Oliveira, “Fátima nunca mais”, 1999)

Por: Joaquim Igreja


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