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Edição de 24-05-2018
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Secção: Opinião

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A exposição
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Uma criança pode nunca se expor a determinadas condições ou situações que chocam, angustiam, que deixam abaladas as convicções. Podemos manter os filhos longe dos contactos com realidades polémicas ou até zonas marginais. A preparação para uma vida normal não obriga a ter experiências, a viver situações limite. Claro que experienciar pode aportar saber. Expormo-nos acarreta ciência de vida. Na medicina as raridades observadas marcam uma certeza para a próxima que já não é surpresa. Vem isto de que expor-se nos guetos e nas margens da sociedade pode trazer amargos de boca, pode esbofetear o nosso conforto. Aqueles bombeiros que primeiro pisaram a estrada de Pedrógão, onde morreram pais e filhos, viram o que gostariam de esquecer mas ficará para sempre na consciência. Uma memória com cheiros, com brutalidade impensável sobre uma catástrofe que eles não suspeitavam. O drama colado à retina e depois ao centro olfativo. Pobres homens e mulheres que testemunharam a tragédia das famílias. Outra realidade é a da natureza, a do campo, que inúmeros citadinos se esquecem de mostrar aos filhos. As galinhas da avó, as cabras de onde se retira o queijo. Arrancar a cenoura do chão. Tirar o nabo da terra. A realidade presenciada fora dos supermercados só pode ser construtiva. Não é brutal, é só um quotidiano de outros que é bom presenciar. Outra realidade é a dos lugares de acolhimento de crianças de famílias desestruturadas. Ver meninos que saíram de biltres e canalhas, crianças nunca amadas, é uma experiência de uma dureza épica. Você chora, você vai para casa amassado. Umas vezes, em Lugo, fui visitar crianças num centro de acolhimento. Foi um pedido de uma freira que me via sem família, com tempo livre e desafiou para ser figura paterna na instituição. Fui e percebi como há poucos homens nestes meios. Sentei-me com eles, bastava assim – explicaram-me antes. Se for muito atrativo piora as coisas. Se for demasiado interventivo pode errar o fim. Um homem sentado na mesa a comer com eles é já uma diferença enorme. Os pais nunca existiram, ou só gritando, batendo. Fui. Vieram tocar-me. Vieram abraçar-me. Não saí da cadeira mas lá percebi que os afetos estavam num défice profundo naquelas crianças. Eu era importante porque estava presente e era um homem. A figura parental masculina tinha algum sentido, diziam as técnicas e as freiras. Das vezes que fui ensinei-os a comer a banana de garfo e faca – brincando, encontrando dificuldades e reduzindo-as a nada. Outra vez levei camarões e descascámos todos com talher. Assim na mesa, durante o tempo estipulado, fui amado por meninos desconhecidos, fui colo de sorrisos novos, fui pai por instantes de filhos menores de uma sociedade doente. Houve umas sessões que chorei mansinho e um dedo pequeno veio colher-me a lágrima no rosto. Um segredo de dois.

- Estás triste?

- Não meu lindo, é uma comichão no olho! E sorrimos os dois.

Experiências e histórias que tem prurido na alma.

Por: Diogo Cabrita


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