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Edição de 11-10-2018
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Arquivo: Edição de 10-05-2018

Secção: Opinião

Ensinar e aprender na Islândia
Tempo de leitura: 4 m
 
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A minha escola proporcionou-me a oportunidade de viajar para a Islândia, enquadrado num curso estruturado financiado pelo Programa Erasmus + da EU, durante uma semana.

Cento e vinte docentes de dezoito países tiveram a oportunidade de partilhar experiências, criar laços e tomar conhecimento da realidade do ensino nesta ilha altamente vulcânica plantada no Atlântico norte.

Se há uma palavra que descreva este sistema de ensino é “bem-estar”. Foi ver as caras de espanto dos docentes de países latinos (e não só) ao contactar com alunos que andavam descalços pelos corredores e nas salas de aula; a ausência de ruído nos espaços escolares; as turmas a 15 -20 alunos e a ausência de assistentes operacionais a controlar os corredores (porque não eram necessários). Uma autonomia quase total das escolas na escolha e implementação dos curricula, uma percentagem marginal de alunos fumadores ou consumidores de droga ou de alcoolismo entre os adolescentes. A somar a tudo isto, a Islândia orgulha-se de ter uma percentagem de 90% de alunos a ingressar na universidade, onde, para entrar, não são necessários os draconianos exames nacionais, mas tão simplesmente um total de 240 créditos (com as disciplinas semestrais a valer cinco créditos).

Para os que não quiserem a via universitária têm, desde o final do básico, a possibilidade de enveredar pela via profissionalizante cujos cursos estão perfeitamente ajustados às necessidades do mercado islandês e lhes dão elevada empregabilidade.

É, pois, um sistema de ensino muito pragmático em que o papel do professor é muito mais o de tutor do que o de expositor. Vimos alunos ativos no seu processo de aprendizagem, utilizando em sala de aula telemóveis ou “tablets” para fazer pesquisas para os seus projetos. O professor era um orientador, um contribuidor para o processo, um agente facilitador. A matemática, a química, a biologia, eram mobilizadas ao mesmo tempo e transversalmente nos projetos. E a língua materna? Tinha uma fatia importante no dia-a-dia de cada aluno. Nada de “Saramagos” ou “Sttau Monteiros” pela goela abaixo, a não ser que eles o desejassem. Cada aluno tem, durante o ano, que ler dois ou três livros e têm trinta minutos de leitura diária na língua materna, mas também em inglês. As artes plásticas estão enraizadas na comunidade e começam na escola: Teatro, música, dança e outras expressões permitem canalizar muita da energia que pudesse gerar indisciplina ou insatisfação. Os islandeses adoram a escola e sentem-se aí em casa. Não há trabalhos de casa e a escola acaba às 15h30. As aulas são de 40 minutos e não há campainhas. Os alunos rodam pelas salas de aula onde os professores os aguardam e trabalham muito em grupo. Todo o material fica na escola. Não há mochilas carregadas. Há uma enorme sensação de bem-estar e tranquilidade, mas também responsabilidade e dever, numa comunhão dificilmente atingível na esmagadora maioria das salas de aula em Portugal. É muito difícil aplicar este modelo cá. Cabe-nos tentar imitar alguns processos que vimos, reduzir os espartilhos educativos a que sujeitamos os nossos alunos, aqueles excessos de rigor do tipo “tira lá o boné”, “senta-te direito”, “os telemóveis na minha secretária”, etc. É esta infantilização dos nossos alunos que nos está a levar no sentido errado. Tudo lhes é dito e ditado. Seres que têm necessidade de brincar deixaram há muito de o fazer. A criança tem que estar sempre ocupada, mesmo depois da escola acabar. Daí ainda vão para o centro de estudos fazer as pilhas de trabalhos de casa (ou aborrecer os pais com isso em casa), depois para as aulas de piano e karaté e depois de um dia extenuante chegam a casa e só têm tempo de se deitarem e não falam e não convivem nem criam laços familiares e no dia seguinte espera-os mais da mesma aborrecida rotina. As nossas crianças já não brincam e isso é muito mau. Na Islândia vi tudo o que deveria ser feito, também por cá, mas como diria uma personagem dos Gato Fedorento, o sistema “ia dar uma ganda bolta” e a mudança mais difícil e radical, temo, começaria em nós, professores e ministério, porque os alunos são muito mais plásticos e infinitamente mais adaptáveis às mudanças, ainda por cima se estas lhes proporcionarem bem-estar, alegria de viver e gosto por aprender numa escola que sentem sua.

Por: José Carlos Lopes


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