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Edição de 16-08-2018
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Arquivo: Edição de 19-04-2018

Secção: Sociedade

Dos teares da UBI para a semana da moda de Berlim

A moda aliou-se à sustentabilidade e nasceu a Näz, que promete «roupa a um preço justo». A marca criada pela jovem designer Cristiana Costa já galgou fronteiras e conquistou fãs pela Europa.

Por: Ana Eugénia Inácio
Tempo de leitura: 5 m
 
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Cristiana mostrou que é possível «criar vestuário sustentável e acessível para as pessoas, reduzindo ao máximo os custos da produção»
Cristiana mostrou que é possível «criar vestuário sustentável e acessível para as pessoas, reduzindo ao máximo os custos da produção»  Clique na imagem para a aumentar.
Não é necessário recuar muito no tempo para se chegar ao início da aventura de Cristiana. O projeto começou há cerca de dois anos, durante o mestrado em Design de Moda na Universidade da Beira Interior. A estudante conta que na altura não tinha tempo para um “part-time” e, aproveitando os contactos que já tinha de um projeto anterior, decidiu lançar-se em nome próprio, pois «podia trabalhar à noite, ao meu ritmo e fazer coisas com que me identificasse».

Nessa altura Cristiana Costa já tinha tudo bem definido e sabia que a indústria do vestuário é a segunda mais poluente do mundo e que ainda hoje está muitas vezes ligada à exploração de pessoas. «Ficava um bocado chocada, não faz sentido explorar pessoas para produzir roupa», afirma. Além disso, qualquer roupa que procurasse «que fosse justa como consumidora», ou era um estilo no qual não se enquadrava, ou era já dentro do setor de luxo. Este foi o ponto de partida para o seu negócio: «O que tentei criar foi algo no meio porque acreditava que era possível fazer vestuário sem estar a explorar as pessoas», recorda. A parte “social” tornava-se assim a grande inspiração da designer, que não demorou muito a encontrar-se com o lado ecológico e da reciclagem, que chegou «mais por arrasto». «Inicialmente começámos por trabalhar com os desperdícios da indústria, muito mais por necessidade, porque não tínhamos mínimos para grandes encomendas de tecidos», lembra, acrescentando que depois se apercebeu do «quão ecológico era aproveitar tecidos que provavelmente iriam para o lixo».

Esta passou a ser uma nova preocupação nas suas criações, pois sempre que adiciona algo novo à coleção, pensa «qual é a sua pegada ambiental, se faz ou não sentido». Com apenas 23 anos, Cristiana mostrou que é possível «criar vestuário sustentável e acessível para as pessoas, reduzindo ao máximo os custos da produção». Em vez de diminuir os ordenados das pessoas, «como muitas marcas fazem», o que a Näz faz é «trabalhar com tamanhos mais únicos, diminuir as costuras, ou minimizar a modelagem e desse modo tentamos rentabilizar a produção para termos preços mais acessíveis». Um projeto que começou tímido, entre quatro paredes, mas que depressa conquistou o interesse do público em feiras em Lisboa. Com o tempo, Cristiana Costa foi-se apercebendo que «as pessoas procuravam produtos assim». Os consumidores começavam a surgir e foi aí que decidiu «maturar a marca». Nesta fase as aulas de mestrado terão sido fundamentais, pois, além de trabalhar no Departamento Têxtil da UBI, aproveitou os trabalhos da cadeira para esta fase inicial, desenvolvendo o “branding” da marca e o logótipo.

Roupa 100 por cento portuguesa

Criada a marca, a jovem empresária decidiu «tentar a 100 por cento» e dois anos depois a Näz já chega a vários países. Para trás ficaram as dificuldades iniciais de quem comprava apenas 20 ou 30 metros de tecido a grandes empresas. Hoje essas fábricas confiam no trabalho de Cristiana e as portas foram-se abrindo. A roupa da Näz tem etiqueta cem por cento nacional e é sobretudo com a indústria do Norte que trabalha. É onde vai estar nos próximos dias a escolher os tecidos da nova coleção. Mas o trabalho de Cristiana também é feito com a ajuda de indústrias da região, como «a Penteadora, para desenvolver tecidos reciclados, a J. Gomes na reciclagem têxtil, a A. Saraiva, onde fazemos tecido, e na Alçada e Pereira para fazer os acabamentos», adianta. Sendo a Covilhã uma cidade ligada à indústria da lã, a criadora não quis desperdiçar essa tradição e acredita que «a lã reciclada pode ser uma boa solução ao negócio da lã que hoje está mais fraco. Mas ainda estamos a testar».

Hoje, com o seu próprio atelier no Parkurbis, no Parque Industrial do Tortosendo, é lá que são produzidas a maioria das suas peças, bem como o desenho e a modelagem, que são feitos por si e por uma funcionária, Raquel. No entanto, só tem capacidade de produzir abaixo das 60 peças, «acima disso trabalhamos com duas confeções familiares, em Barcelos e Leiria, nas quais confiamos», sublinha a designer. Mas Cristiana revela que gostava de fazer toda a produção na região, só que as empresas que existem não fazem o mesmo trabalho e «é um investimento muito grande» ter mais pessoas e máquinas consigo.

Quando a marca nasceu, Cristiana mal podia imaginar o sucesso que iria fazer. Além da sua roupa estar já em várias lojas de Lisboa, Aveiro, Lagos e brevemente em Chaves, a Europa não resistiu ao seu trabalho e hoje está também em vários países como na Bélgica, Holanda, Áustria. É na Semana da Moda de Berlim que tem aproveitado para divulgar a marca e, em julho, vai marcar de novo presença para a apresentar a coleção de Inverno. Por agora na Covilhã ainda não tem loja, mas têm um “showroom” no atelier e loja online no site da Näz.

Quanto ao futuro da marca, Cristiana prefere levar um dia de cada vez, mas tem vários objetivos a alcançar. A coleção de Verão já tem 850 peças e nas próximas coleções quer introduzir «detalhes de luxo». A marca está direccionada para o público feminino, mas pensa chegar ao público masculino e crianças. Atualmente está também a trabalhar com outras empresas a produção de malhas orgânicas, explicando que não se limitam apenas a escolher, «queremos fazer um trabalho melhor». Um dia Cristiana Costa gostava de montar a sua própria confecção, «mas para já é impossível tendo em conta as quantidades que produzimos».

Se esse passo será dado na Covilhã é outra questão a que a designer não sabe responder: «É muito difícil estar cá, pelos custos de contexto. Tenho de me descolar constantemente e o valor das portagens é muito elevado. Não temos aqui o consumidor final e torna-se difícil», lamenta.


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