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Edição de 16-08-2018
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Arquivo: Edição de 08-02-2018

Secção: Opinião

A vingança do selo
Tempo de leitura: 3 m
 
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Vinte e alguns anos depois vejo abrir serviços noticiosos sobre a indignação de políticos e gentes da capital da macrocefalia por causa do encerramento das estações do CTT.

Entre alguns indignados vi a sempre determinada Catarina Martins a juntar-se a uns populares porque os CTT decidiram encerrar a estação da Rua da Palma, em Lisboa, precisamente ao lado da sede do Bloco de Esquerda. Tarde piaste!

Pediram-me para assinar uma petição para a nacionalização dos CTT e eu disse liminarmente que não. Fi-lo há vinte anos quando era público, agora é tarde!

Confesso que me dá algum gozo ver fechar em Lisboa coisas que no interior, e no caso na aldeia onde vivo, os serviços dos CTT há quase vinte anos, e ninguém se importou com isso.

A malta de Lisboa entretém-se com coisas bem mais importantes de certeza, para não terem dado conta de tudo isto. Estou pesaroso por terem sido apanhados de surpresa! Enfim!

A estratégia de encerramento de balcões dos CTT é um processo que já vem de há muito, é transversal a um conjunto de governos e faz parte do pacote que Bruxelas exigiu a Portugal privatizar nos termos da adesão à União Europeia. Digam as coisas sem subterfúgios, que a malta entende!

Esta irritação dos tipos das cidades de Lisboa e Porto por ficarem sem o seu balcão, que nem selos vende, é só uma pequena “vingançazinha” pelo facto de estarem a passar pelo mesmo que pessoas em centenas de povoações do interior passaram, quando viram, impotentes, encerrar sem justificação o balcão que era fundamental para o seu quotidiano de uma vida dura, difícil e longe dos holofotes das Tv’s e microfones das rádios.

Confesso que me estou perfeitamente borrifando para que fechem os balcões de Lisboa, ou Porto, e talvez, numa linguagem quase brechtiana, me apetece dizer: “Que me importa, eu nem lá vivo!”

Hipocrisia quanto baste, porque de facto o esbulho do que foram alvo empresas públicas e determinantes no desenvolvimento do país, que foram liminarmente desbaratadas e entregues aos privados que ficaram com os serviços que lhe convinham, ou melhor que interessavam aos acionistas sem rosto, e levou a que hoje se esteja completamente à mercê da agiotagem económica do capital, que recruta os seus sipaios e capatazes entre os ex-governantes do país. Estes governantes, por acaso, são curiosamente os mesmos que trataram de dividir as empresas, empurrar trabalhadores para reformas antecipadas, descapitalizá-las e por fim privatizá-las, com o argumento fátuo de que o sector público não tem condições para gerir uma estrutura deste tipo!

Não assino mais petições nenhumas e quero é que os CTT não me percam mais encomendas. Se querem nacionalizar os CTT façam-no, ao mesmo tempo de muita empresa que arruinou um interior que vai morrendo, e onde apenas sobrevivem aldeias vazias onde, de meia em meia hora, umas vuvuzelas roufenhas instaladas nas torres sineiras vão debitando “avés marias” e “pai-nossos” (não são padre-nossos, que esses também já se piraram) para rigorosamente quase ninguém.

Por este atentado ao direito que todos têm ao silêncio assino a petição! O resto, olhem, vão para a REN que os parta!

Por: Fernando Pereira


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