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Edição de 18-01-2018
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Arquivo: Edição de 11-01-2018

Secção: Opinião

Tens alguma coisa contra o meu egoísmo? Ah!
Tempo de leitura: 3 m
 
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Há uns anos, bem no olho da crise, tocou à minha porta um homem de uns trinta anos. Seriam bem umas onze da noite, hora muito avançada para que alguém ousasse informar-me sobre um serviço de telecomunicações, sem levar com o respetivo raspanete e a minha muito má cara.

“Arranja-me um pacote de leite”? Desconcertada, gaguejei qualquer coisa e desatei a correr para a despensa, à cata do solicitado e de tudo o que, pensei, acalmaria o infantil estômago dos meus filhos se, depois de bem jantados, não dormissem já nos respetivos quartos. Ao ver-me de mãos enriçadas com pacotes, nem todos de leite, pareceu oportuno socorrer-me de um saco que, atabalhoadamente, entreguei ao bom do homem. Fechei a porta muito devagarinho, para não acordar as crianças, e desatei a chorar. Não por aquele pai que acabara de me bater à porta, não. O meu choro nasceu da possibilidade de, numa noite, ser eu a viver aquela circunstância e não ter a certeza de a conseguir ultrapassar com a mesma sensatez e coragem. Mentiria ao escrever que esse momento mudou a minha vida, mas que me ajudou a consciencializar e a assumir o meu egoísmo é verdade.

Foi a partir dessa noite que decidi agir, única e simplesmente, em prol do meu interesse e, por inerência de cargo, do interesse dos meus filhos. Comecei, então, por fazer as compras da semana no supermercado ao lado da minha escola. Para ajudar a que este não fechasse e os pais dos meus alunos, que lá trabalham, não tivessem de partir à procura de outro trabalho, obrigando-me a partir com eles. Também deixei de encomendar os manuais escolares através da internet. Para evitar deprimir, ao dar de caras com mais uma papelaria encerrada. Depois dessa noite, comecei até a achar parolo, além de cansativo, o périplo dos fins-de-semana pelas cidades vizinhas, onde ia comprar o par de sapatos que tinha visto na montra da cigana da minha rua. Não fosse ela emigrar e a zona ficar em modo de monocultura. É verdade, também nunca mais me esquivei a contribuir para as festas da Póvoa do Mileu. Apesar de detestar a música com que me ensurdecem durante duas, ou três, noites por verão, pode sempre apetecer-me ir lá comprar umas farturas.

Mas nisto, de ser egoísta, convêm que não nos atenhamos só no ter que comer, estudar, vestir e festas por perto. Importa também lembrar que os ecos e notícias de tudo o que fica, ou devia ficar, aqui mesmo à mão, são fundamentais para podermos influenciar a envolvente em proveito próprio! Exatamente por essa razão, corro também para o e-banking ou para o quiosque, cada vez que me deparo com uma janela pop up a propor-me que contribua para a continuidade da imprensa livre. Pago, pago sim senhor, para que a tal da liberdade de imprensa me vá continuando a proteger de trolls e fake news. Aliás, com o fim da neutralidade da Internet nos EU e a “defesa” dos direitos de autor na UE, um destes dias, egoisticamente, ainda acabo é a ler jornais.

Por: Fidélia Pissarra


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