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Edição de 07-12-2017
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Secção: Opinião

Tresler
Ler o passado
Tempo de leitura: 5 m
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1.Cada homem é um político e o Padre António Vieira no séc. XVII assumiu fortemente a sua capacidade de pensar e tomar opções. Uma estátua do Padre António Vieira, no Largo Trindade Coelho em Lisboa, de cruz em riste e ladeado por pequenos índios que o missionário catequizava, levantou há dois meses uma ventania poeirenta à volta desta figura ímpar da literatura e da cidadania portuguesa. De vez em quando, quando nos parece que a História já está escrita, vem um desmancha-prazeres a introduzir areias na engrenagem e a reescrever o que se supunha definitivo. Desta vez foi uma inauguração, uma crónica de Alexandra Prado Coelho e finalmente uma manifestação abortada contra a estátua. Afinal o Padre António Vieira seria grande defensor dos índios mas um péssimo defensor dos escravos negros, que ele desprezaria e que considerava mão-de-obra necessária à produção agrícola dos colonos do Brasil. Os índios eram rebeldes e fracos trabalhadores, sendo também muito amigos da liberdade. Os negros, não os terá defendido da mesma maneira o nosso missionário.

Ler o passado com os olhos de hoje é tão errado como pensar que a mundividência do séc. XVII já alcançava ir para além da escravatura. E errado é também defender que o Padre A.V. estaria consciente da imensa injustiça feita tanto aos índios como aos negros e não defenderia os negros por simples maldade ou discriminação. Ignoram os seus detratores que cada homem em si constitui um mundo de contradições, em que Vieira também caiu. Num tempo de forte proselitismo na Igreja católica, missionar e converter não era violência. Mas para A.V. ir capturar índios no sertão para os escravizar já o era. Deixar os índios em paz era digno, combater a escravatura negra não era sensato. Muitas vezes A.V. defendeu os colonos, doutras vezes lutou contra eles. António Vieira sempre se entregou à vida com uma forte carga de pragmatismo e os contemporâneos não ganham em o julgar precipitadamente e à luz de conceitos que vingariam séculos mais tarde, muitas vítimas depois. Ainda assim, visto 400 anos depois, ganha marcas de modernidade e verticalidade que não devemos deixar de assinalar. Coragem não lhe faltou, apesar de às vezes não encontrarmos coerência naquilo que fez.

2.Cada vez gosto mais de autobiografias, diários ou livros de memórias. Quando as fórmulas de romance estão todas inventadas ou já se apresentam como esgotadas, a narrativa na 1ª pessoa com o narrador a olhar para o seu trajeto ameaça ainda trazer novidades. Mas também nesta área é preciso talento para contar e para reinventar a verdade que queremos contar, a nossa verdade.

A distância temporal de quem narra relativamente ao seu passado ajuda em geral a relativizar, a aprofundar e selecionar o que fica. E em cada idade há momentos marcantes em que fomos protagonistas sublimes ou ridículos face à nossa família, aos vizinhos, aos amigos, aos nossos “superiores”. Na infância certos acontecimentos ter-nos-ão marcado para o resto da vida: uma discussão ou uma humilhação na escola; uma teimosia dos pais; uma decisão benevolente ou uma cedência que nos agradou mas que mais tarde pagámos; o ganhar de uma faceta temperamental que surge como reação e se consolida. A juventude, época dos grandes passos, já nos encontra a maior parte das vezes formatados, receosos de olhos baixos, livres como cabritos sem rumo ou então razoavelmente conscientes dos limites. Mas há sempre um desequilíbrio que fica e que lá por dentro guardaremos como mágoa ou entorse, apesar de a “normalidade” da vida adulta vir em geral aplanar e esconder qualquer anomalia. As instituições em que nos inserimos, quadradas como são, religião, casamento, escola ou outras, são outras tantas arestas que produzem alergias e compensações, condicionando e deformando.

Contar a nossa história é assim contar a maneira como nos assumimos e como interpretámos aquilo que a vida nos fez. Se optássemos por isolar o corpo do espírito a história seria outra e também aí seria a história de uma aprendizagem: dos tropeções e fragilidades da primeira infância, da experiência de ver o corpo no espelho, do rejeitar desse corpo, da irrupção da doença em certos momentos, da forma como a vencemos, do reconhecimento do nosso sexo, da forma como nos ligámos fisicamente na infância a alguém familiar e na vida sentimental a um ou vários “estranhos/as”. A história do nosso corpo são também as práticas físicas, as lágrimas, a presença dos outros, as bebedeiras, a agressividade, os castigos corporais infligidos ou suportados. É esta a opção de Daniel Pennac em “Diário de um corpo”, diário de sensações e sensibilidade que reconstitui romanescamente a biografia de alguém que reconhece não ter dado muita expressão física aos afetos e aos relacionamentos próximos. Mas a intenção do diário é montar uma história como se durante toda a nossa vida fôssemos “filhos do nosso corpo”, que, por sua vez, como bom pai, nos surpreende a cada passo. No final deste diário, percurso de construção de uma dignidade, resta a consciência tranquila e melancólica do envelhecimento, como se disséssemos à morte “Anda! Vá lá!” ou pedíssemos aos nossos amigos na véspera desse dia: “Não venham cá amanhã. Não me compliquem a morte”.

Feliz Natal! Feliz 2018!

(Daniel Pennac, Journal d’un corps –Diário de um corpo, Gallimard, 2012)

Por: Joaquim Igreja


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