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Edição de 19-10-2017
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Arquivo: Edição de 16-02-2017

Secção: Opinião

Rotundistão
Tempo de leitura: 3 m
 
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As rotundas, essa fonte de problemas infinita para automobilistas e autoridades, e de trabalho sem fim no horizonte para a Corporacion Dermoestética da construção civil, são vezes demais vistas como corolário de um modelo de desenvolvimento esgotado e de futilidade urbana em estado puro. Fossem as autarquias as “50 sombras de Grey” e as rotundas seriam o seu chicote, tal o fascínio, o prazer e o castigo económico por elas infligido.

Estrategicamente colocada entre a outrora capital da rotunda e o autoproclamado Trumpistão europeu de Rajoy, o Rotundistão vivia dias de festa. Aliás, o barómetro de alegria municipal antecipa novas festividades. Particularmente desde que ao abrigo do programa “Querido Mudei a Rotunda” uma mão cheia delas foi reabilitada. Entre palestras de autoestima e valorização interior e do Interior do guru Gustavo Prantos, havia um discurso particularmente inflamado, «não pague, não pague, não pagaremos a reabilitação! Serão os Mexicanos de Bruxelas a pagar e posso afirmá-lo com 85% de certeza».

O Rotundistão estava finalmente no mapa e toda esta excitação contaminou o país. Na margem sul, Rúben Carlos e Vanessa Luísa não conseguem ficar nem mais um segundo na cama, afinal hoje é o dia de rumar ao local que anseiam conhecer desde a conclusão da coleção Planeta Agostini “As 1001 Rotundas do retângulo”.

O nervosismo de estar a poucas horas de algumas das mais icónicas placas giratórias orientadoras do sentido do trânsito do país nem lhes permitiu desfrutar das amenidades oferecidas por um dos comboios-charter que diariamente transportam milhares de pessoas a esta nova Meca das intersecções viárias. Nem o cheiro nauseabundo que lhes invadiu as entranhas no vale de um rio à entrada da cidade ao encher os pulmões de ar, como lhes recomendava um “outdoor”, os fez vacilar.

Se aguardavam confusão e cotoveladas entre a multidão para entrar no moderno monorrail que os aguardava à saída da estação ferroviária, estavam rotundamente enganados. Rapidamente, entre lojas de souvenirs e barraquinhas de bilhetes para o Rotundódromo Carnavalesco, conseguiram um confortável lugar em direção à derradeira experiência de deleite gráfico.

O rodízio foi farto, e entre sereias encantadas, flores, gigantes peças anatómicas, flores, letras, flores, sólidos geométricos iluminados, flores, composições de transporte ferroviário grafitadas, flores, teares, flores e cilindros metálicos iluminados que fazem sonhar muitas profissionais em Amesterdão, e mesmo depois de tantas voltas, a sensação era de celebração do dia mundial do orgasmo visual.

Ainda alvitraram a possibilidade de conhecer os poucos monumentos nacionais de cidade, mas as máquinas de realidade virtual que possibilitam a sua visita sem contaminação de chapas de latão, telas e similares estavam avariadas pelo que optaram por encher a lancheira com meia dúzia de D. Cristalinos publicitados em cada poste de iluminação pública da cidade e por uns banhos de sol no parque agora que foi devolvido à cidade, depois de anos sequestrado por gaios e esquilos.

Na despedia a esta fugaz, mas intensa, incursão, nunca como antes as palavras do poeta luso-brasileiro Mário Gil faziam tanto sentido: «Pelos caminhos de Portugal eu vi tanta coisa linda vi um mundo sem igual…»

Por: Pedro Narciso


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