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Edição de 23-05-2013
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Secção: Opinião

Theatrum mundi
Sarkozy e a Europa
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Apesar do alívio de muitos europeístas convictos na noite da expressiva vitória eleitoral de Nicolas Sarkozy em França, o futuro próximo da construção europeia promete continuar marcado por velhas e novas encruzilhadas. Durante meses, as atenções estiveram concentradas nos projectos de Sarkozy e Royal para ultrapassar o impasse criado pela rejeição em referendo, em 2005, do tratado constitucional pelos franceses. Na noite da vitória, Sarkozy proclamava que a França estava de regresso à Europa, o que queria dizer que os franceses haviam sufragado o seu projecto de mini-tratado europeu e que prescindiam de voltar a pronunciar-se em referendo sobre a matéria. A ideia fez doutrina e também por cá, onde a ideia de referendar a Europa fora objecto de amplo consenso, o alívio de muitos europeístas foi notório.

Ainda assim, o regresso da França à Europa não vai conseguir resolver os paradoxos e contradições com que se confronta, no imediato, a integração política do continente. Pode até criar novos paradoxos e contradições. Antes de mais, a Europa sarkoziana rejeita a Turquia, depois de este país ter sido aceite como candidato à adesão no Conselho europeu de Outubro de 2005. A ocasião foi marcada por difíceis negociações entre os parceiros europeus, e o resultado final foi a consequência lógica da aproximação da Turquia à Europa durante as últimas décadas e um acto linguístico da maior importância para compreender a redefinição da identidade europeia. A França de Sarkozy rejeita o entendimento de 2005 e estende à Turquia a oferta de uma parceria privilegiada sem adesão. Para Sarkozy, a Europa política deve ter fronteiras claras e, como declarou várias vezes durante a campanha, se a Turquia fosse europeia, isso seria evidente…

A questão de Sarkozy não é só com a Turquia, mas com os pequenos estados e, sobretudo, com os eurocépticos. No seu entender, o alargamento da União Europeia ao Centro e Leste do continente põe em causa a possibilidade de maior integração, já que implica a fragmentação do processo de decisão no seio das instituições comunitárias. A Europa sarkoziana perfila-se pois como a Europa dirigida por um directório de grandes potências que repartem entre si os lugares-chave e a influência sobre as instituições e tomam as decisões cruciais. O recado do Presidente Chirac aos países que alinharam com os Estados Unidos na guerra do Iraque, em 2003, para se calarem criou uma suspeição generalizada a Leste quanto aos projectos franceses para a Europa e, nos últimos dias, polacos e checos já se manifestaram contra o mini-tratado de Sarkozy.

A clivagem entre a França e a "Nova Europa", como foram rebaptizados por Donald Rumsfeld os antigos satélites soviéticos, promete agravar-se à conta do projecto americano para aí instalar um novo escudo antimíssil. Para lá dos antigos dilemas de segurança que o projecto faz renascer na Rússia, que já ameaçou reorientar os seus próprios mísseis contra a Europa, está em causa a própria coesão da União Europeia em matéria de segurança e defesa. A Leste, a Rússia continua a ser vista como inimigo real, e os antigos satélites competem agora por relações privilegiadas com a superpotência que resta e que entendem que é a única entidade capaz de produzir segurança. Já esta semana, a Bulgária manifestou inquietação por poder vir a ficar de fora dos planos americanos para o novo escudo antimíssil.

Quando Sarkozy escolheu para mote da sua campanha Ensemble tout devient possible, também era no interior da Europa que estava a pensar. No interior da Europa, contudo, estes e outros factores tornam cada vez mais difícil avançar em torno de um projecto colectivo consensual e mobilizador. E a próxima encruzilhada está já ao virar da esquina. Recebido como herói na Albânia, George W. Bush declarou que reconhecerá a independência do Kosovo, ainda que sem acordo da Sérvia e sem decisão do Conselho de Segurança da ONU. A consequência deste acto linguístico é que os Estados Unidos acabam de dar os seu reconhecimento de facto ao Kosovo independente e que assistiremos, dentro em breve, à declaração unilateral da independência por parte dos albano-kosovares. Perante o facto consumado, será de ver se a Europa sarkoziana é capaz de manter uma posição comum, e ainda se ela não terá de se confrontar com o derradeiro acto da tragédia jugoslava.

Por: Marcos Farias Ferreira


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