Arquivo: Edição de 31-07-2008
Secção: Editorial
EditorialInspirados pelo "Livro do Desassossego", na passada segunda-feira, desfrutámos de um momento de grande beleza proporcionado pela pequena editora Alma Azul na IV Festa do Livro. As poucas pessoas que participaram, enquanto muitas por ali deambularam, conheceram melhor Fernando Pessoa e seus heterónimos. E deliciaram-se com a força das palavras que soaram docemente, num ambiente dominado pela poesia e pela literatura.
Não foi apenas Bernardo Soares – mas chegava para deleitar os mais atentos. Com algum desassossego, reflicto sobre cada uma das palavras: «A literatura, que é a arte casada com o pensamento e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite.
Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver. Não há nada de real na vida que o não seja porque se descreveu bem. Os críticos da casa pequena soem apontar que tal poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom em uma memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira.
Tudo é o que somos, e tudo será, para os que nos seguirem na diversidade do tempo, conforme nós intensamente o houvermos imaginado, isto é, o houvermos, com a imaginação metida no corpo, verdadeiramente sido. Não creio que a história seja mais, em seu grande panorama desbotado, que um decurso de interpretações, um consenso confuso de testemunhos distraídos.
O romancista é todos nós, e narramos quando vemos, porque ver é complexo como tudo.
Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas com os olhos fechados, como a um gato, a tudo quanto poderia ter dito.»
Este olhar singelo, mas profundo e absoluto, do «ajudante de guarda-livros» Bernardo Soares, é uma luz que ilumina «no desalinho triste das minhas sensações confusas».
O momento foi de Pessoa e, por culpa de momentos assim, o esforço, o trabalho, as muitas horas perdidas (ou ganhas) na preparação desta feira do livro deixaram de ser um sacrifício para serem de entusiasmante alegria e festa. O momento valeu mais do que as muitas palavras de desatino, do que os vis comentários de almas pequenas, do que a insensatez de fazer sem meios, apoios ou condições a IV Festa do Livro. Por estranho que pareça, foi na interpretação de Bernardo Soares (há uns meses) que decidi que sim, que fazia sentido voltar a fazer uma feira do livro (em prejuízo próprio, da empresa e da minha equipa de trabalho – pequena e que ficou sem tempo livre nestes dias…), porque a dimensão da literatura é, no pragmatismo da condição humana, precisamente, «o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal».
Luís Baptista-Martins
