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Edição de 26-08-2010
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Arquivo: Edição de 14-02-2008

Secção: Editorial

Editorial
A caixinha mágica
Tempo de leitura: 4 m
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«Que porreiro, pá!», a exclamação podia pertencer a Sócrates ou a Barroso, mas não, esta terá sido a resposta que um presidente de Câmara da região deu a um colega seu quando este lhe explicou, telefonicamente, um projecto maravilhoso: a criação de um canal de televisão no seu concelho. Além da elucidação, aproveitou ainda para meter uma "cunha" para que recebesse o representante da empresa promotora e contratasse o serviço. «Claro que sim! Ter um canal de televisão? Isso é fantástico!» respondeu o primeiro.

Este projecto de criação de televisões online foi lançado em Outubro em Lisboa, mas só agora chega à região. A empresa promotora pretende marcar presença nos «308 concelhos nacionais» e vai ter por base conteúdos locais – feitos pelas próprias Câmaras ou por parceiros locais (na região deverão contar com a colaboração do IPG). A promotora edita e coloca online. As páginas ficarão alojadas no portal do Sapo emitindo em full screen! Tudo na web, claro. A apresentação é boa e o webdesign atractivo. Mas nada de extraordinário. Salvo o facto de ser um negócio fantástico, mas que, no fundo, não tem qualquer interesse para as pessoas. A denominação será, por exemplo, trancoso.tv (cada concelho terá um canal, e cada canal terá a designação do município). Cada autarquia terá de pagar mil euros por mês para ter uma televisão! E terá, seguramente, de adquirir equipamento e ter pessoal para produzir os conteúdos. Ou seja, os custos finais serão muito superiores aos mil euros mensais que se destinam a alojar o "canal".

Como é óbvio, tudo isto não passa de uma feira de vaidades. De despesa, pura e dura! Imaginem-se os conteúdos que estes canais irão apresentar – «o senhor presidente da Câmara deslocou-se a Lisboa…», ou «o senhor Presidente visitou…» ou «o senhor vereador reuniu com…».

O canal "Guarda.tv" está registado por uma empresa da Guarda. Curiosamente, no entanto, os promotores destes canais «de autarquias» querem contratar com a Câmara da Guarda o canal Guarda.tv (!), ou seja, nem se deram ao trabalho de verificar se este já existia…

Actualmente, há uma televisão local por cabo em Portugal: o "Porto Canal" (que emite no canal 10 da TV Cabo). E existem uma série de canais online – Aveiro. tv, Viseu.tv, Mirandela.tv, TvBeja ou Oeste.tv, para dar alguns exemplos. Se exceptuarmos a Évora.tv, com conteúdos próprios e programação bem definida, todas as demais são, no fundo, emissoras de pequenos clips, que ficam muitas vezes segundos a fazer loading ou na memória intermédia sem que a imagem evolua (a Loures.tv leva vários dias a repetir o Carnaval local – isso sim, com boa imagem e com um vereador a dançar com ar de tontinho, mas muito feliz). Não têm audiência (a que têm é em circuito fechado – um grupo de amigos que gostam de se ver na televisão). E no fundo o que fazem é rigorosamente o mesmo que o youtube, com mais custos. A UBI tem um canal (TUBI) em circuito fechado (na Universidade) e podia expandi-lo já, se assim o entendesse, assegurando mais e melhor qualidade que qualquer dos projectos referidos.

O sistema de TDT (Televisão Digital Terrestre) avança a passos largos por toda a Europa. E a Comissão Europeia determinou que até 2012 terá de ser feito o "switch off" (desligar o actual sistema analógico). Em Portugal o processo está atrasado, mas irá ganhar velocidade em breve – até porque a SIC e a TVI querem passar para o sistema digital o mais brevemente possível.

O futuro da televisão passa, obviamente, pelos canais digitais, mas no contexto da TDT. Os canais digitais vão aparecer e irão desenvolver-se numa dinâmica completamente diferente daquela que vai sendo proposta às autarquias. Os que agora aderirem vão fazê-lo por genuína vaidade e fatuidade. Mais uma forma de gastar dinheiro… para aparecer! Com escassa qualidade e audiência zero. Outra coisa seria as autarquias associarem-se numa televisão regional feita com critério e com editores locais.

PS: Uma nota de pesar pelo desaparecimento de José Costa. Colaborou em diversas ocasiões com este jornal, foi candidato à Câmara da Guarda e desenvolveu importante actividade em prol da região enquanto sindicalista e como dirigente comunista.

Luís Baptista-Martins


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